segunda-feira, 2 de junho de 2008

aQUILO QUE TENHO MEDO


eU ESTAVA ATRASADO PARA O COMPROMISSO DE DOMINGO. o ÔNIBUS DEMOROU A CHEGAR NO PONTO E EU JÁ NÃO AGÜENTAVA MAIS O SOL ESCALDANTE E AS MOSCAS DAQUELE LUGAR IMUNDO. sUBI OS DEGRAUS DE METAL, A PORTA SE FECHOU AUTOMATICAMENTE ATRÁS DE MIM E PASSEI PELA VELHA ROLETA TRANQÜILIAMENTE, AFINAL, APESAR DE SER DOMINGO E OS ÔNIBUS SE ENCHEREM RAPIDAMENTE NESSE DIA, ESSE COLETIVO ATÉ QUE ESTAVA BEM VAZIO. sENTEI EM UMA DAS CADEIRAS E POR CERCA DE DEZ PONTOS-DE-ÔNIBUS, EU ESTAVA TRANQUILO, LENDO RAÇA E HISTÓRIA DE CLAUDE LÉVI-STRAUSS (TRABALHO!). o BARULHO INCONFUNDÍVEL DA PORTA SE ABRINDO SOOU DE NOVO E, LOGO APÓS SUBIREM DUAS PESSOAS, SURGE ENTRE ESTAS UM SER QUE ME ASSUSTOU. sUA VESTIMENTA BEM PECULIAR CHAMOU A ATENÇÃO DE TODOS. cHAMOU A MINHA ATENÇÃO. pENSEI: "NÃO SENTE DO MEU LADO!" E, POR ALGUNS MOMENTOS ACHEI QUE AQUILO NÃO IA SENTAR JUNTO A MIM. eNQUANTO ELE NÃO PASSAVA PELA ROLETA, FIQUEI A OBSERVÁ-LO: SUAS CORES, SEU CABELO, SUA DISCRIÇÃO - APESAR DE SUA APARÊNCIA NÃO SER NADA DISCRETA -, SEUS GESTOS E SUAS EXPRESSÕES FACIAIS. "cONHEÇO ESTE SER! ...é O MEU MEDO". dE NADA ADIANTOU MEUS PENSAMENTOS, ELE SENTOU DO MEU LADO. eNTRE VÁRIAS CADEIRAS, QUE AINDA ESPERAVAM SER OCUPADAS, ELE DECIDIU QUE AO MEU LADO ERA UM BOM LUGAR. fIQUEI TODA A VIAGEM OLHANDO PARA A JANELA E FOLHEANDO O LIVRO. dE REPENTE, UM CHEIRO SUTIL, MAS MUITO DESAGRADÁVEL, COMEÇOU A PAIRAR. sÓ PODIA SER DAQUELE QUE ESTAVA SENTADO PERTO. nÃO CONSEGUI MAIS LER. pERCEBI, DEPOIS DE SENTIR O TAL ODOR DE NOVO, QUE A MINHA JANELA ESTAVA FECHADA. aBRI-A IMEDIATAMENTE. aGORA, PARA MINHA SURPRESA, COMECEI A SENTIR UM CHEIRO DOCE E AGRADÁVEL. sÓ PODERIA SER MESMO DAQUELE SER E ISSO ME ENOJOU AINDA MAIS...EU ESTAVA GOSTANDO DA FRAGRÂNCIA E ISSO ME ASSUSTAVA E, MAIS UMA VEZ, ME ENOJAVA. vOLTEI A LER O LÉVI-STRAUSS. o CHEIRO, QUE JÁ TINHA SE EXTINGUIDO, AINDA ESTAVA NAS MINHAS NARINAS E NA MINHA MEMÓRIA E ME RECUSAVA A GOSTAR DAQUELE CHEIRO. nÃO FOI MUITO DIFÍCIL ODIAR AQUELA FRAGRÂNCIA, NEM TIVE DE FAZER ESFORÇO PARA ISSO, BASTOU LEMBRAR O QUE AQUELE TAL MEDO REPRESENTAVA PARA MIM. mE PRENDI MUITO AO CHEIRO, POR MUITO TEMPO, DURANTE QUASE TODA A VIAGEM PORQUE NÃO OLHEI UM SEGUNDO SEQUER PARA O ROSTO DELE. sEMPRE QUE MEU PESCOÇO COMEÇAVA A VIRAR 180º GRAUS PARA O CORREDOR, EU VOLTAVA COM A CABEÇA. fINALMENTE MEU PONTO DE CHEGADA ESTAVA PRÓXIMO E MEU CORAÇÃO PALPITOU AO VER AS PLACAS E OS PONTOS DE REFERÊNCIA QUE CARACTERIZAVAM O MEU DESTINO. pUS O LIVRO NA MOCHILA, QUE POR SUA VEZ, COLOQUEI-A NAS COSTAS E ME LEVANTEI COMO SINAL PARA AQUELE INDIVÍDUO DE QUE EU IRIA DESCER. pARA MINHA SURPRESA, ELE NÃO HESITOU EM ESTICAR AS PERNAS PARA O CORREDOR - AS MESMAS PERNAS QUE TRISCARAM EM MIM POR TODA A VIAGEM - E ME DEIXOU PASSAR. "pOR QUE SERÁ QUE ELE ME DEIXOU PASSAR?". qUANDO ESTAVA PERTO DOS DEGRAUS, TOMEI CORAGEM E OLHEI PARA AQUELE ROSTO QUE ME ATORMENTARA POR 46 MINUTOS E NOTEI QUE ELE ERA MAIS TRISTE QUE EU. nA VERDADE, EU SUPUS QUE ELE ERA TRISTE, POIS EU, MESMO NÃO TENDO PROFERIDO UMA PALAVRA, PERGUNTEI-ME QUANTAS PESSOAS NÃO PENSAVAM O MESMO QUE EU? e PIOR, QUANTAS JÁ NÃO EXPRESSARAM ESSE ÓDIO? sENTI PENA. qUANDO OS MEUS PÉS TOCARAM O ÚLTIMO DEGRAU, QUESTIONEI-ME SE AQUILO ERA MESMO O MEU MEDO OU SE, SIMPLESMENTE, ERA ALGUÉM QUE DERA O AZAR DE SENTAR AO LADO DE UMA PESSOA QUE O JULGARIA SEM LHE PRESTAR O BENEFÍCIO DA DÚVIDA.

Um comentário:

Lívia Vasconcelos disse...

Quem nunca julgou alguém, né?
pro bem ou pro mal!
Ruim tambérm quando isso acontece com a gente, mas é inevitável :/

Viagem, hein, ben??
^^